*Artigo escrito por Camilo Farias
Em alguma rede social, li um escritor ou escritora afirmar escrever para “deixar uma marca no mundo”. Reagi com a estranheza dos divergentes, mas sabendo tratar-se de caso em que a minoria sou eu: nem todos se bastam com trabalhar, viajar, beber demais às vezes, envelhecer ou morrer cedo, sendo lembrado apenas pela dúzia de almas queridas a quem chamamos “os de verdade”. Há quem anseie participar de algo maior, seja marcando uma parede de pedra nua em argila avermelhada, seja pegando em armas para derrubar um governo alegadamente tirânico ou ditatorial.
“Eu vivia em um mito, em uma mitologia que me levava a raciocinar e a pensar”. Segundo Alberto Franceschini, um dos fundadores das Brigate Rosse italianas, esse espírito o habitava quando, em março de 1972, participou do sequestro do gerente da empresa Siemens, Idalgo Macchiarini. Tornou-se célebre a fotografia de Idalgo em cativeiro, olhos arregalados, expressão temerosa sob a mira de armas. Abaixo de seu rosto, um cartaz exclamava dizeres como “Golpear um para educar cem!”.
Não há nada de condenável em querer produzir efeitos no mundo. Pelo contrário, é da percepção de que nossas ações influenciam a vida pública que surge a disposição para participar dela. Deixa-se de ser espectador e passa-se a personagem, e talvez aí resida a face da sedução; hoje em dia existem as redes, o pertencimento a um grupo (ou bolha) ganhou o reforço do algoritmo e o conforto da virtualidade. A injustiça veiculada no noticiário ou post exige uma opinião, uma reação que pode se dar por algum comentário, ou reel, não sendo mais tão necessário apontar armas para gerentes de fábricas.
Nesse sentido, e quanto a Franceschini, ele reconheceu que, na mitologia de sua militância, “o fim justificava os meios”. Anos mais tarde, passou a sustentar o contrário: “os meios são os fins”, são permeáveis, contaminam-se: “Se você acredita que o mundo, o mundo do futuro, deve ser um lugar de paz, não pode tentar alcançá-lo usando instrumentos de guerra.”
Para alguns indivíduos, é muito importante ser importante. Ao encontro desse desejo, talvez os meios tenham atenuado os custos e atuar na História parece ser mais fácil. A questão de fundo, todavia, se torna mais importante e incômoda, pois exige apontar o dedo para o ente chamado “eu” e medir se este carrega as ferramentas capazes de deixar uma marca que mereça permanecer. Uma marca que valha ser gravada.
* Camilo Farias é advogado e autor do livro "A Assassina de Berlim", thriller noir que combina espionagem, conflitos históricos, relações afetivas e dilemas morais
Com informações de LC - Agência de Comunicação


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