Artigo escrito por Mónica Palacios*
Vamos pedir licença para entrar no núcleo familiar.
Sem dúvida, na perspectiva de teorias da psicologia do desenvolvimento, da sociologia da infância, da teoria bioecológica do desenvolvimento e outras, é a família o melhor laboratório para o desenvolvimento da criança. A antropologia evolutiva explica que a espécie humana é a única programada para a criação compartilhada. Também existe uma outra teoria conhecida como O Conceito de capital social familiar, defendida por James Coleman, que se refere ao suporte das redes de relacionamento que auxiliam não só a infância, mas a família como um todo.
Não podemos ignorar que a vida atual tem levado à criação ou à formação de famílias diferentes que procuram manter essa rede afetiva, fundamental para o desenvolvimento da criança. E, como a família é um recorte da sociedade, é a criação de um clima leve e natural a peça-chave para que a criança se torne segura ao se sociabilizar.
Independentemente da configuração, cada integrante tem um espaço próprio no núcleo familiar, que permite o desenvolvimento infantil e a manutenção do afeto nas relações.
Os avós, por exemplo, são uma fonte com o passado, o sinônimo de tradição familiar e de estabilidade. Em casos de divórcios, luto ou crises financeiras, eles atuam como amortizadores emocionais para a criança. Existem também estatísticas que reforçam a importância de os avós compartilharem narrações sobre os pais da criança, humanizando as figuras da autoridade familiar. Curiosamente, Kristen Hawkes se referiu à prolongação da vida das mulheres após a menopausa como uma finalidade, para aproveitar os netos e garantir a sobrevivência da espécie.
Já os pais são uma garantia. É com eles que as crianças constroem seus alicerces emocionais e criam consciência dos limites. Além disso, elas são imitadoras das reações vistas no convívio social com os pais. A responsabilidade dessas figuras não é só como provedoras, mas como modelo de comportamento da criança para gerar autonomia e confiança.
Os irmãos garantem uma relação mais longa, prepara as crianças para se relacionarem com o mundo e as protege da solidão. Com eles, aprendem a negociar, a se solidarizar e a se reconciliar. Os conflitos entre irmãos, quando não chegam a extremos, são saudáveis, porque eles precisam mediar, ceder e ter empatia.
No universo infantil, também existem as fadas e os duendes cúmplices, os tios e tias. Essas figuras funcionam como um seguro de proteção. Na juventude, eles podem até acolher suas dúvidas e serem válvulas de escape em períodos de transição. Já os primos são o primeiro círculo de amizade. Com eles, forma-se um grupo, um clã, com quem podem compartilhar férias e festas, além de enriquecer sua memória afetiva.
Essa é uma visão sistêmica e fenomenológica baseada em Bert Hellinger, que analisa as hierarquias e a importância de respeitar a sequência conforme forem aparecendo (avós-pais-tios-primos). Também alerta a certos comportamentos familiares que podem ser repetidos pelas novas gerações, mas que devem ser quebrados.
No fim, cada vínculo ocupa um lugar na história da criança. É nessa rede de afetos, referências e histórias que ela aprende a pertencer e a se relacionar.
* Mónica Palacios é professora de espanhol, autora do livro infantojuvenil “As descobertas de Fernando”, doutora (lato sensu) em Literatura Infantojuvenil pela Universidade Cândido Mendes e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).
Com informações de LC - Agência de Comunicação


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