Reciclagem no Carnaval gera renda, mobiliza catadores e registra recorde histórico

Coleta de latinhas e outros recicláveis transforma festa popular em oportunidade econômica e reforça práticas de sustentabilidade

O que acontece com a lata depois que o folião termina a bebida no meio do bloco? No Carnaval de 2026, a resposta ganhou escala histórica por meio da reciclagem. Em Salvador, 46 toneladas de latinhas de alumínio foram recolhidas em apenas quatro dias de festa, garantindo à cidade um lugar no Guinness World Records pela maior ação de reciclagem realizada durante um Carnaval.

Ao todo, 131 toneladas de materiais recicláveis tiveram destinação correta na capital baiana. A operação mobilizou mais de três mil catadores autônomos e mais de dez cooperativas, com centros de coleta instalados nos principais circuitos da festa. O impacto econômico também foi significativo: cerca de R$ 1,4 milhão foram destinados diretamente à renda desses trabalhadores.

O avanço da reciclagem no Carnaval não ficou restrito à Bahia. Em Belo Horizonte, a coleta de recicláveis cresceu 15 toneladas em relação ao ano anterior. O aumento acompanha a expansão do público nas ruas e o crescimento do consumo de bebidas durante o Carnaval de rua, o que amplia o potencial econômico gerado por grandes eventos populares.

Para Getúlio Andrade, catador há três décadas e diretor da ASMARE, a folia representa o momento mais importante do ano para quem vive da reciclagem. “O Carnaval envolve a cidade toda. Não vejo outro evento que se iguale, nem mesmo o réveillon. É um evento aberto”, afirma.

Reciclagem amplia geração de renda

Entre os materiais coletados, o alumínio tem papel central. Por possuir maior valor de mercado dentro da cadeia da reciclagem, ele se transforma em uma importante fonte de renda para catadores.

“É o material mais caro gerado e procurado. Essa variedade de bebidas gera valor”, explica Getúlio.

Na prática, cada embalagem descartada nas ruas se transforma em pagamento direto para quem realiza a coleta. Em Salvador, os centros estruturados permitiram pesagem e remuneração no mesmo dia. Já em Belo Horizonte, o projeto ReciclaBelô garantiu diária mínima de R$ 150 para catadores autônomos durante os quatro dias de festa, além do valor obtido com a venda dos materiais recicláveis.

O programa também ofereceu equipamentos de proteção e estrutura adequada para triagem dos resíduos, fortalecendo a organização do trabalho mesmo diante do grande fluxo de foliões.

Limpeza urbana e economia circular

A ampliação da reciclagem durante o Carnaval também impacta diretamente a limpeza urbana e a segurança nas ruas. A retirada rápida de latas, plásticos e vidros reduz riscos para o público e evita que grandes volumes de resíduos tenham como destino final os aterros sanitários.

 

Nesse cenário, o alumínio ocupa posição estratégica. Trata-se de um dos materiais mais valorizados no mercado de reciclagem no Brasil, o que amplia o impacto econômico da coleta durante grandes eventos.

Essa valorização ajuda a explicar por que a reciclagem de latinhas ganhou protagonismo no Carnaval. Quanto maior o volume recolhido, maior a renda gerada para os catadores e maior o retorno ambiental para as cidades.

O modelo adotado em diferentes capitais demonstra que a reciclagem pode funcionar dentro da lógica da economia circular mesmo em eventos de grande porte. O que seria descartado retorna ao ciclo produtivo, gera renda e reduz impactos ambientais.

Para Getúlio, a experiência mostra que os catadores têm capacidade de atuar em operações de grande escala. “É um case de sucesso. Mostra que podemos atuar em grandes eventos com eficiência”, afirma.

A líder de Sustentabilidade da Abrasel, Lílian Silva, destaca que os catadores exercem papel essencial dentro da cadeia do setor de alimentação fora do lar.

“Os catadores são fundamentais na cadeia produtiva do setor de alimentação fora do lar. Sem eles, a reciclagem não acontece, o que acelera o esgotamento dos recursos naturais do planeta. Os bares e restaurantes podem contribuir para a eficiência do trabalho desses profissionais por meio da separação correta dos resíduos, gerando mais renda, segurança e dignidade”, afirma.

Com milhões de pessoas nas ruas, a reciclagem deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar a dinâmica econômica do Carnaval. O consumo que movimenta estabelecimentos, ambulantes e blocos também sustenta uma cadeia produtiva que começa na rua e termina na indústria recicladora.

O recorde registrado em Salvador e o crescimento observado em Belo Horizonte indicam que a reciclagem pode caminhar junto com a cultura popular. No ritmo do Carnaval, cada lata descartada representa mais do que alumínio: representa renda, organização e um avanço na gestão sustentável das grandes festas brasileiras.

 

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